PAPO VET: PIODERMITE SOB CONTROLE
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A piodermite é uma das dermatopatias mais frequentes em cães, podendo ser classificada como superficial, profunda ou mucocutânea. O tratamento antimicrobiano adequado é essencial para a resolução da infecção e prevenção de recidivas. Entre os antibióticos disponíveis, a cefalexina, uma cefalosporina de primeira geração, destaca-se por sua eficácia, segurança e amplo espectro contra os principais agentes etiológicos da doença (Rosser, 2004).
Etiologia e Fisiopatologia da Piodermite Canina
A piodermite canina é causada por uma infecção bacteriana oportunista, frequentemente secundária a fatores predisponentes como alergias, endocrinopatias (hipotireoidismo e hiperadrenocorticismo), imunossupressão e traumas cutâneos (Scott et al, 2011; Codner Rhodes, 2003).
Os principais agentes envolvidos incluem Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Streptococcus agalactiae, além de outras bactérias como Escherichia coli, Proteus mirabilis, Klebsiella pneumoniae e Pasteurella multocida, que podem estar presentes em casos mais complicados. A presença dessas bactérias pode resultar em quadros clínicos variáveis, desde lesões papulopustulares até ulcerações extensas e celulite necrosante (Rosser, 1998).
Mecanismo de Ação da Cefalexina
A cefalexina atua inibindo a síntese da parede celular bacteriana por meio da inativação das proteínas ligadoras de penicilina (PBPs), resultando na lise e morte bacteriana. Por ser um antibiótico beta-lactâmico de primeira geração, apresenta excelente atividade contra bactérias Gram-positivas, como Staphylococcus spp. e Streptococcus spp., além de alguma atividade contra certas Gram-negativas, incluindo Escherichia coli e Proteus mirabilis. Sua ação bactericida depende de uma concentração adequada no local da infecção, sendo crucial a administração correta para evitar resistência antimicrobiana. (Chorilli et. al, 2010; Oliveira, 2011).
Farmacocinética e Farmacodinâmica da Cefalexina
A cefalexina apresenta excelente biodisponibilidade oral, sendo rapidamente absorvida no trato gastrointestinal dos cães. Atinge concentrações plasmáticas máximas entre 1 e 2 horas após a administração, com ampla distribuição nos tecidos cutâneos, tornando-se particularmente eficaz para infecções de pele.
Faz-se por uso terapêutico para cães e gatos a cefalexina de 10 a 30 mg/kg a cada 12 horas, sendo subcutânea, intravenosa, intramuscular ou via oral (Andrade, 2002). O metabolismo hepático da cefalexina é mínimo, sendo eliminada predominantemente por via renal, o que reforça a necessidade de ajuste de dose em pacientes com insuficiência renal (Shargel; Yu, 1993; Rowland; Tozer, 1995; Carli; Anfossi; Villa, 1999).
Evidências Científicas da Eficácia da Cefalexina na Piodermite
Estudos demonstram que a cefalexina apresenta alta taxa de sucesso no tratamento da piodermite canina, com taxas de cura superiores a 80% em tratamentos de 3 a 6 semanas. Um estudo conduzido por Toma et. al (2008) demonstrou que a administração de cefalexina na dose de 15 a 30 mg/kg a cada 12 horas ou 30 mg/kg a 60 mg/kg ao dia, por uma mediana de 28 dias (14-42 dias), resultou em resolução completa dos sinais clínicos em 100% dos casos de piodermite superficial em amostra de 40 cães.
Além disso, a cefalexina mostrou-se eficaz na redução da carga bacteriana em infecções profundas, sendo uma das opções mais recomendadas nos protocolos terapêuticos atuais (Jenkins, 1987).
Diretrizes Terapêuticas e Considerações Clínicas
A dose recomendada de cefalexina para cães com piodermite é de 22 a 30 mg/kg a cada 12 horas, por um período de pelo menos 21 a 30 dias, podendo ser prolongado dependendo da gravidade do quadro (CRMV-MG, 2013). Em casos de piodermite profunda, recomenda-se a continuidade do tratamento por até 12 semanas, com reavaliação clínica periódica.
O acompanhamento veterinário é essencial para garantir a adesão ao tratamento, prevenir resistência bacteriana e avaliar a necessidade de terapias adjuvantes, como o uso de shampoos antimicrobianos e imunomoduladores.
Na maioria dos casos, o tratamento sistêmico é associado ao tratamento tópico, pois essa combinação potencializa a resposta terapêutica e reduz as chances de recidiva. (Conceição; Fabris, 2000; Rosser, 2004).
Conclusão
A cefalexina continua sendo uma das principais opções terapêuticas no tratamento da piodermite canina devido à sua eficácia contra os principais agentes etiológicos, excelente perfil de segurança e facilidade de administração. Estudos clínicos reforçam seu uso como tratamento de primeira linha, tornando-a indispensável na prática veterinária para o manejo de infecções cutâneas bacterianas.
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Referências
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Como citar esse artigo:
MUNDO ANIMAL. Papo Vet: Piodermite Sob Controle. Blog Dicas Pet. 2025. Disponível em:https://www.mundoanimal.vet.br/site/dicas_pet_view.php?t=Papo_Vet:_Piodermite_Sob_Controle&d=78& Acesso em: data de acesso.
Por : Departamento Técnico Mundo Animal