DICAS PET

PAPO VET: SÍNDROME DA DISFUNÇÃO COGNITIVA EM PETS: DEFINIÇÃO, CAUSAS E TRATAMENTOS PARA ALZHEIMER VETERINÁRIO
(8 minutos de leitura)

A Síndrome da Disfunção Cognitiva (SDC) é uma condição neurodegenerativa progressiva que afeta animais geriátricos, sendo frequentemente comparada à Doença de Alzheimer em humanos. Caracteriza-se pela deterioração das funções cognitivas, como memória, aprendizado e reconhecimento ambiental, resultando em impactos significativos no comportamento e qualidade de vida dos animais afetados. Este quadro clínico é uma preocupação crescente na prática veterinária, uma vez que seus sinais podem ser confundidos com mudanças comportamentais típicas do envelhecimento, dificultando o diagnóstico precoce. (Nichol; Araújo, 2012; Teixeira et. al, 2024)


Definição e Manifestações Clínicas
A Síndrome da Disfunção Cognitiva é caracterizada por alterações neurológicas que comprometem o funcionamento cerebral de cães e gatos idosos.
Os sintomas mais comuns, de acordo com Dewey et al., 2019, incluem:

* Desorientação espacial: Animais afetados podem demonstrar confusão em ambientes familiares, como se não reconhecessem o local onde estão ou onde fica a porta.
* Alterações nos ciclos de sono: A SDC é frequentemente associada a distúrbios no sono, com episódios de agitação à noite e períodos prolongados de vigília.
* Declínio na aprendizagem e memória: Animais com SDC apresentam dificuldades em aprender novos comandos ou recordar tarefas previamente aprendidas.
* Mudanças comportamentais: A agressividade e a apatia podem surgir, assim como a perda de interesse em interações sociais ou atividades cotidianas.
* Incontinência urinária e fecal: Em alguns casos, observa-se perda do controle sobre as necessidades fisiológicas.


Causas da Síndrome da Disfunção Cognitiva
Neilson et al. (2001) reportam que cerca de 68% dos cães com idade superior a 11 anos apresentam algum nível de comprometimento cognitivo.
A principal causa da SDC é o envelhecimento do sistema nervoso central, o qual leva à degeneração neuronal e à diminuição das funções cognitivas. Além disso, Azkona et al. (2009) e Katina et. al (2015), vários fatores podem contribuir para o desenvolvimento da síndrome:

* Acúmulo de proteínas beta-amiloide: Assim como na Doença de Alzheimer em humanos, o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro pode prejudicar a comunicação entre as células nervosas, resultando em declínio cognitivo.
* Alterações nos neurotransmissores: A redução de neurotransmissores essenciais, como a dopamina e a serotonina, tem sido associada a déficits cognitivos e alterações comportamentais nos animais idosos.
* Estresse oxidativo e inflamação cerebral: O aumento de radicais livres e a resposta inflamatória exacerbada no cérebro contribuem para a degeneração neuronal, acelerando o processo de declínio cognitivo.
* Predisposição genética: Raças específicas, como os Dachshunds, Schnauzers, Beagles, Cavalier King Spanhiel e Poodles, apresentam uma maior predisposição genética para desenvolver a SDC, o que sugere a influência de fatores hereditários na condição (González-Martínez et al., 2012)


Diagnóstico
O diagnóstico da Síndrome da Disfunção Cognitiva é baseado na avaliação clínica detalhada, que inclui anamnese, exame físico e neurológico, além de exames laboratoriais complementares. Em muitos casos, o diagnóstico é realizado por exclusão, uma vez que os sintomas podem ser semelhantes a outras condições, como doenças metabólicas ou infecções. Exames de imagem cerebral podem ser indicados para auxiliar na avaliação da saúde neurológica do animal, embora não sejam sempre decisivos (Rofina, 2006).


Estratégias Terapêuticas
Embora a Síndrome da Disfunção Cognitiva seja irreversível, diversos tratamentos têm se mostrado eficazes para melhorar a qualidade de vida dos animais afetados e retardar a progressão dos sintomas:


1- Intervenções nutricionais: Dietas enriquecidas com antioxidantes, ácidos graxos ômega-3 (principalmente o DHA) e nutrientes que promovem a saúde cerebral, como a vitamina E, podem contribuir para a preservação das funções cognitivas. Existem também dietas comerciais específicas para animais geriátricos com foco no suporte à saúde cerebral (Cotman et. al, 2002).

2 - Medicamentos específicos: Medicamentos como o selegilina (inibidor da monoamina oxidase-B) têm sido utilizados no tratamento da SDC, pois aumentam os níveis de dopamina no cérebro, promovendo melhora dos sinais clínicos (Campbell; Trettien; Kozan, 2001).
De acordo com Pineda et al. (2014), os vasodilatadores nicergolina, propentofilina e pentoxifilina atuam principalmente aumentando o fluxo sanguíneo cerebral, o que contribui para a melhora da aprendizagem e da memória, funções frequentemente comprometidas em cães com DCC.

3 - Estimulação cognitiva: O estímulo mental contínuo é essencial no manejo da SDC. A realização de atividades interativas, treinamento de comandos e a utilização de brinquedos desafiadores são estratégias que podem retardar o avanço do quadro (Milgram et al., 2005)

4 - Ajustes ambientais: Proporcionar um ambiente estruturado e seguro, com rotinas consistentes e fácil acesso a alimentação, água e local de descanso, é fundamental para minimizar a desorientação e a ansiedade nos animais com SDC. (Rosado et al., 2012)

5 - Terapias adjuntas: Wang et al., (2012), indicam que a acupuntura estimula regiões cerebrais associadas à memória e cognição, sugerindo seu potencial como complemento aos tratamentos convencionais para cães com SDCC. Ao modular a atividade cerebral, essas técnicas contribuem para a preservação das funções cognitivas.
Outras terapias complementares podem incluir roupas de compressão, feromônios, aromaterapia, acupressão, massagem e fisioterapia (Seibert, 2017).

6 - Células tronco: Wihadmadyatami et al. (2023) conduziram um estudo demonstrando que a terapia baseada em células-tronco mesenquimais derivadas do cordão umbilical bovino, associadas a nanopartículas de hidrogel de quitosana, apresenta potencial terapêutico significativo no manejo da SDCC. A sinergia entre esses biomateriais possibilita a neuroproteção ao mitigar a apoptose neuronal, modular a resposta neuroinflamatória e estimular processos regenerativos no tecido neural. Além disso, a funcionalização do hidrogel com nanopartículas permite a liberação sustentada e direcionada dos bioativos, otimizando sua biodisponibilidade e amplificando a eficácia neurorestauradora. Essa abordagem terapêutica inovadora e minimamente invasiva surge como uma alternativa promissora, especialmente para quadros avançados de SDCC, nos quais estratégias convencionais apresentam limitações terapêuticas.


Conclusão
A Síndrome da Disfunção Cognitiva representa um desafio crescente na medicina veterinária, especialmente devido à sua prevalência em animais geriátricos e aos impactos significativos na qualidade de vida. O diagnóstico precoce e a implementação de abordagens terapêuticas adequadas podem proporcionar melhorias substanciais no bem-estar dos pacientes afetados. Veterinários desempenham um papel crucial não apenas na detecção dos primeiros sinais da condição, mas também no aconselhamento de tutores sobre as melhores estratégias para manejar os sintomas e prolongar a qualidade de vida dos animais idosos.

Com o aumento da expectativa de vida dos animais, torna-se cada vez mais importante adotar medidas preventivas para preservar a função cognitiva e a qualidade de vida dos pacientes geriátricos. A intervenção precoce pode contribuir significativamente para a mitigação dos impactos do declínio neurológico associado à disfunção cognitiva.


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Referências
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Como citar esse artigo:

MUNDO ANIMAL. Papo Vet: Síndrome da Disfunção Cognitiva em Pets - Definição, Causas e Tratamentos para Alzheimer Veterinário. Blog Dicas Pet. Disponível em:https://www.mundoanimal.vet.br/site/dicas_pet_view.php?t=Papo_Vet:_S%C3%ADndrome_da_Disfun%C3%A7%C3%A3o_Cognitiva_em_Pets:_Defini%C3%A7%C3%A3o,_Causas_e_Tratamentos_para_Alzheimer_Veterin%C3%A1rio____&d=76&. Acesso em:
Por : Departamento Técnico Mundo Animal
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